Lendo Yoko Ogawa

(Contém spoilers)

É com grande alegria que vejo a Literatura Japonesa ganhando força cada vez maior nas prateleiras, blogs e páginas de jornais e portais de comunicação – e é com alegria ainda maior que me deparo com resenhas e mais resenhas de livros que extrapolam a sequência de Murakamis da lista dos 10 mais vendidos da Veja. Não obstante esse frisson que remete ao final dos 00s, as obras do Nihon sempre foram um pouco subestimadas em Terra Brasilis por conta de uma mal interpretada superficialidade decorrente, talvez, da barreira cultural ou, ainda, da preguiça (ainda persistente) da maioria dos jornalistas daqui (como podemos observar nessa resenha muito bem feita sobre o segundo livro publicado no Brasil da Yoko Ogawa – percebam a ironia, por favor – na Folha de S.Paulo). Há, ainda, outros motivos que possivelmente levam a produção literária japonesa a encontrar certa resistência no meio intelectual, dentre os quais podemos destacar a ênfase na cultura pop como ponta de lança da política cultural internacional japonesa (oh, japoneses, esses frívolos); mas, enfim, são especulações, hipóteses e conjecturas que certamente mereceriam um estudo sobre.

Esse movimento de expansão literária nipônica no Brasil encontra, meio que obviamente, certa sincronicidade na minha experiência pessoal com o nicho: tive o meu primeiro contato com títulos nihonguenses em 2005/6, quando, decepcionada com o curso de russo na época, mas ainda encantada com o mundo recém-descortinado pela Universidade – vagava pelos corredores da Florestan quando fui escolhida por uma edição surrada dos Contos de Oe Kenzaburo (autor, aliás, que rende certamente assunto para outro post) publicados pela casa. Um longo hiato se sucedeu à surpreendente leitura até a Era Murakami da minha vida, que, por mais relegada ao mundo best-seller que tenha sido, meio que indiretamente me levou à nova graduação em Letras – Japonês, abrindo espaço para um leque imenso de obras incríveis que dividem espaço com a ala russa em meu kokoro.

Já o meu primeiro contato com a bola da vez da Literatura Japonesa no Brasil (será?) teve início no final de 2013, quando eu, em uma das inúmeras visitas descompromissadas à Livraria Edusp do Complexo Brasiliana (à época, ao lado do meu trabalho), dei de cara com a edição da LeYa de Hotel Iris em um dos stands frontais. A reação foi, em um primeiro momento, de estranhamento: LeYa publicando um autor japonês? Um livro da LeYa na vitrine da Edusp? Tomei o título nas mãos, incrédula, e comecei a folheá-lo, até que fui abordada por um estagiário hansamu sugiru desu da livraria, que prontamente entabulou conversa com a minha pessoa. Ele era da faculdade de Direito e o havia lido recentemente, pois tinha bastante interesse por literatura japonesa – até tinha ido ao Japão com bolsa pela JASSO… “Puxa, você estuda japonês? Deveria tentar essa bolsa, adorei ter ido para lá…”. Acabei levando o livro, ganhando um tímido e delicioso sorriso de brinde e, curiosamente, tomei posse da informação-semente que brotaria e desabrocharia no meu atual intercâmbio.

Muitos pseudoleitores falam e resenham sobre Hotel Iris como uma cópia de Lolita, de Nabokov, por conta do apelo pedófilo do enredo, que trata uma relação S&M entre um excêntrico homem de meia-idade e Mari, a filha-funcionária menor de idade da dona de um hotel decadente em uma região portuária. Embora seja um ponto de partida comum, a leitura surpreendeu pela tônica da relação entre ambos e o tom desesperadoramente calmo com o qual a narrativa é conduzida: a garota que narra e protagoniza a narrativa relata os eventos de forma natural, de forma a ganharem uma aura de mera fatalidade; seus sentimentos para com a mãe dominadora e o homem de meia-idade – que, aliás, é tradutor russo-japonês, risos – são contidos, mesmo com a intensificação do seu desejo na medida em que o relacionamento abusivo e o mistério que paira sobre a morte da esposa do sujeito tomam os seus pensamentos. Há no comportamento da protagonista uma estranha aceitação dos acontecimentos que torna o romance extremamente perturbador. O final da leitura trouxe consigo o ímpeto de procurar mais livros a autora – o qual foi prontamente refreado pela inexistência de mais traduções dela por aqui (a de Hotel Iris, aliás, é indireta do inglês).

Tal desejo passou a ser atendido e alimentado pela Editora Estação Liberdade (senpai, note o meu merchan!) em 2016: uma colega da primeira graduação (hoje mestre em Literatura Japonesa) traduziu, finalmente, O museu do silêncio com considerável alarido na cena intelectual. Com uma história de aquisição menos pitoresca, adquiri o título na Festa do Livro da USP mesmo ano e li o livro num átimo, da mesma forma que o primeiro. Como é sabido, a leitura de uma segunda obra do autor marca as primeiras impressões substanciais de seus procedimentos fundamentais de composição, e com O museu não foi diferente – e eles não se restringem à hábil construção de thrillers.

Temos como mote um trabalho bastante inusitado para o qual um museólogo inominado fora contratado: a execução de um projeto de museu que expusesse os itens mais representativos dos falecidos habitantes de uma aldeia. A contratante, uma velha excêntrica e nojenta, disponibiliza a mão-de-obra de sua filha (adotiva) e do jardineiro de sua mansão para o andamento dos trabalhos. Com o desenrolar da história, o museu em si perde espaço para o enveredamento do protagonista em um irreversível estado de cativeiro: o trabalho no museu nunca termina, a comunicação entre o museólogo e o irmão torna-se estranhamente unilateral e uma série de eventos funestos passa a assolar o vilarejo. O museólogo é levado a paroxismos de tensão psicológica; ele passa a querer partir da vila com todas as forças, na exata contramão do pleno fatalismo subserviente da Mari de Hotel Iris, mas é chegado um momento na narrativa em que eis que ambos são, diante das minhas vistas, unidos pelo mesmo sentimento: uma espécie de Síndrome de Estocolmo em relação às situações que os constrangem. O museólogo é “trazido à razão” pelo jardineiro, que o reconduz à mansão da velha e, então, retoma a sua função com uma espécie de, hm, devoção irracional em prol da manutenção e crescimento do museu (afinal, as mortes na aldeia não cessarão enquanto existirem pessoas vivas).

Seja após desesperada luta ou com uma resignação sem resistências, tanto Mari quanto o museólogo são conduzidos a uma circunstância com a qual desenvolvem uma relação doentia, passando a desejar aquilo que os constrange, a ponto desse algo se tornar meio que uma condição essencial, o sentido de suas vidas. Ainda não li o recém-lançado A fórmula do professor, mas fico a me perguntar se essa relação de apego dos protagonistas a uma situação decadente e sem saída vem a ser um dos eixos temáticos de sua obra – e mais, penso ainda se há alguma metaforização intencional desses protagonistas no que tange à própria figura do Japão moderno em relação aos EUA, que constitui um dos mais impressionantes casos de Síndrome de Estocolmo já vistos na História Contemporânea.

Eu poderia, ainda, falar do tratamento de caracteres desmistificador, por parte da autora, com vistas a não só driblar possíveis maniqueísmos aos quais o leitor médio adora aderir, mas também a atrelar a conduta de seus personagens a elementos que transcendem o combo determinista formação/ambiente – tanto em Hotel Iris quanto em O museu do silêncio não há nada definido de antemão e tudo termina com nada definido, como só a vida pode ser. Mas enfim, o que importa aqui é tentar fazer um esboço (bem porco, por sinal – afinal, isto é só um blog de anotações randômicas) da relevância e densidade de uma obra arrolada na tenebrosa e temida categoria de best-sellers no Japão. Acredito que, nesse ponto, tanto Yoko Ogawa quanto o próprio Haruki Murakami são casos bastante exemplares de que sim, é possível surpreender com algo digno de análise fora da torre de marfim da academia; ao olhar pelo viés da aceitação pública, não seriam eles os grandes indicadores comportamentais de uma geração?

É quase certo que não partirei para o Japão sem ler A fórmula do professor. Se a essa pseudoreview não foi suficiente, acredito que essa frase seja bem clara sobre como Yoko Ogawa é altamente recomendável. Leiam essa mulher!

Placar: quatro estrelas. Go ahead! ✪✪✪✪✩

#kanjilearning – WaniKani

Enquanto a viagem ainda não rola, vou aproveitar esses dias de semi-folga que me restam e fazer as trezentas reviews que eu devo para o Mundo – a primeira delas é para os kouhais (e senpais da vida, por que não? Estaria eu sendo pretensiosa?) que padecem na sofrida aventura de aprender kanjis.

Preciso confessar que sou uma pessoa muito (mas MUITO mesmo, de verdade) preguiçosa para estudar alguma coisa que exija certa rotina e não esteja minimamente inserida no meu cotidiano (talvez a USP tenha me condicionado dessa forma – ler tudo na última semana, fazer trabalho de virada com a esperteza que Deus me deu e assim garantir um 8 ou 9, mas enfim, jamais saberemos), logo, sou daquelas que necessita sempre de um estímulo fascinante que drible essas minhas fraquezas rumo ao gol da plena memorização desse sistema de escrita do Inferno. Sempre fui uma pessoa dos joguinhos e métodos de aprendizagem alternativos, também, e meus alunos de português cansaram de construir comigo jogos de tabuleiro dos movimentos literários, batalhas navais de regência verbal e jogos da memória das orações subordinadas, então já deu pra ter uma ideia do que virá pela frente.

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Eu, obviamente, serei em breve a gordinha com o poder de segurar a boca do jacaré (ou apenas uma gordinha, mesmo)

Conheci o WaniKani por indicação de um colega de turma da época da Aliança e, confesso, deixei o trem virginalmente instalado no meu celular por ERAS até o momento em que caí em mim que a bolsa da Kendai tinha efetivamente saído e eu deveria fazer algo a respeito para não passar aperto com os kanjis nos primeiros dias do intercâmbio. E, claro, isso não deveria se resumir às apostilas e métodos tradicionais: eu deveria trabalhar meus vícios e canalizá-los para o japonês, de forma a substituir a olhadela mecânica e compulsiva no feed do facebook por reviews e quizzes periódicos no smartphone. Baixei o Ohayou (resenha em breve, prometo) para treinar o chôkai e, como era de se esperar nesta review, finalmente abri o WaniKani.

A ideia do app é estabelecer uma espécie de competição consigo mesmo: a cada nível, em uma primeira etapa, você é apresentado a um determinado número de radicais, kanjis ou palavras (sinalizadas respectivamente pelas cores azul, rosa e roxo) para, em seguida, fazer quizzes repetidamente até que, pelo número de acertos (ou guruzadas, como eu costumo carinhosamente dizer), você consiga desbloquear o conteúdo do próximo nível.

(Home do app e grupo de apps convidativo para os próximos posts – ignorem a coisa russa)

É melhor que Candy Crush, certamente, mas exige conhecimento de língua inglesa para entender as tiradinhas que eles utilizam para responder corretamente, no quiz, as palavras-chave do processo mnemônico dos radicais e o significado dos kanjis, por exemplo. Nem sempre os termos-chave para memorização dos radicais são o que eles realmente significam na etimologia, o que pode deixar alguns estudiosos da área ou puristas consideravelmente putos da vida, mas, enfim, nem tudo é perfeito (mas… sério que o segundo radical da imagem é uma arma?).

(da esquerda para a direita, porque somos ocidentais: hint em situação de erro de vocabulário no quiz; radical como nome facilmente memorizável *percebam a ironia na minha voz*; radical de nome duvidoso)

A ideia é que ocorra um aprendizado gradativo: ainda que seja meio demodê por se fundamentar na repetição, a internalização das leituras ocorre aos poucos, sem aquela fissura de já serem apresentadas a chinesa e a japonesa logo de uma vez para você decorar. As leituras em curso de internalização são reforçadas com o vocabulário do nível, que é apresentado com exemplos frasais na primeira etapa.

Além dos recursos do app, sei que a conta dá acesso ao fórum da comunidade no qual os users discutem vários tópicos não só relativos ao curso do app, mas também ao aprendizado do japonês de forma geral. Como isso não faz parte das minhas demandas em relação à plataforma, eis um recurso ainda a ser por mim explorado.

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Qual é o placar dessa belezinha? ✪✪✪✪✩

(Sempre podemos melhorar, né? Talvez apostar em um processo mnemônico com foco etimológico fosse um bom começo).

P.S. – respondendo à pergunta que não quer calar, eu ainda olho compulsivamente o feed do facebook – mas um pouco menos, já que tenho mantido o placar de, no mínimo, duas reviews diárias.

Lembrando que posso fazer mais resenhas de apps e materiais de japonês por aqui, afinal, tentar coisas novas para aprender essa língua do inferno foi o que eu mais fiz nos últimos quatro anos, haha. Deixem seus comentários ou sugestões abaixo (ou mandem um e-mail para o amanda.osti@gmail.com) que ficarei feliz em ajudar na medida dos corres 😉

Um refresh

(ou Um textão introdutório claudicante)

Passei por uma longa temporada de perdidos e achados na minha vida desde janeiro de 2012 – o mês em que pedi as contas na Moderna para fazer uma revolução na minha vida. É difícil sair de um status de aparente vitória profissional (quem consegue uma vaga relativamente boa em uma editora de renome sem aquele Q.I.?) e voltar à vida de subemprego – ainda que em prol de uma causa maior. Houve quem me achasse uma pessoa ingrata, até, o que me chegou a render algumas portas fechadas, inclusive. Tudo isso para estudar japonês. Ni.hon.go. Uma língua de proficiência dificílima, completamente homófona e com um sistema de escrita que escapa à lógica de qualquer ocidental. Enquanto batia cabeça nas aulas e via o mercado editorial se deteriorar mais e mais, dificultando mais ainda o meu retorno ao nicho, muitas vezes pensei em desistir e enveredar por um caminho mais certo, mais “normal” e menos desgastante. A recompensa veio somente cinco anos depois – e com várias ressalvas financeiras – mas, minha gente, que sabor! Para quem obteve tudo de forma relativamente fácil nesse campo da vida, essa foi uma lição de valor e tanto.

Well, eis então que o ano de 2017 começa com novas perspectivas para Mandi e uma desculpa para um novo blog: habemus um ano de camelagem no Japão com várias trapalhadas do barulho. Prometo que não falarei apenas disso por aqui, mas tejem avisados. Beijos.

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Aquela foto clichê de passaporte na mão, inevitável.