Notas sobre a chegada

Sim, eu estou atrasada nos posts, e sei muito bem disso. O fato é que três semanas se passaram e muitas, mas MUITAS coisas aconteceram. Ensaiei o início deste post várias vezes, pensei em dividir os acontecimentos em várias partes, testei várias perspectivas. Dado o fato de que o período em questão pode ser muito bem caracterizado pela expressão montanha-russa emocional, percebi que seria impossível manter um discurso uniforme, já que passei do amor ao ódio a esse país em uma escala de nanosegundos infinitas vezes. No final das contas, decidi por um resumo em tópicos que poderão ser futuramente desenvolvidos em outros posts, e é isso aí. Ikou?

Sobre a viagem. Remanejamento de voo da Qatar, filmes indianos na playlist da classe econômica (indico, inclusive, este aqui, que é maravilhosamente bom de tão ruim), Deja Vu do Giorgio Moroder tocado por inteiro infinitas vezes, cãibras, chineses aos montes a ignorar as orientações de voo e colocar os brazucas mais tr00zeros no chinelo, escala no insólito aeroporto de Pequim, Air China e seu péssimo serviço (de bordo e de bagagem), delay de um dia das minhas tranqueiras e, no final das contas, uma corrida vertiginosa até a casa da prima do meu namorado em Okazaki, onde fiquei presa por conta do paradeiro das malas por dois dias.

A casa. O 国際留学生会館 (ou simplesmente kaikan, para os íntimos) fica a três minutos de caminhada da estação Minato Kuyakusho do metrô e a 25m no mesmo pé do porto de Nagoya, o que garante muito vento e uma perspectiva de local bastante propício para ver o mar e passar a tarde pensando na vida. Nagoya, ao contrário de Tóquio, não oferece o glamour do entretenimento japonês tipo exportação (a não ser para os viciados em pachinko, afinal, essa praga pode ser encontrada em qualquer esquina de norte a sul neste país), mas garante alguns passeios muito interessantes, como o aquário público, o castelo, o museu da Toyota, Osu Kannon, entre muitos outros que rendem assuntos para outros posts. Há um mercado na quadra ao lado com uma funcionária aparentemente xenófoba (o que rende material para o próximo post, aliás), uma biblioteca na mesma avenida, um Hotto Motto a 15m (aka a Grande Maravilha do Bem Comer a preços baixos), e, na proximidade imediata, uma konbini (única coisa aberta depois das 21h neste país) e um restaurante de udon a preços bem amigáveis. Na república há muitos coreanos, chineses, duas alemãs, três BRs (eu inclusa, obviamente), uma portuguesa, alguns espanhóis e latinos que tentam a todo custo evitar conversar em espanhol com os falantes de português para que a verdade ululante do parentesco linguístico não venha à tona, dois franceses… até onde minha contabilidade pôde alcançar. Quick note: os asiáticos do meu andar já conseguiram o achievement do cartazinho com os dizeres “vamos tentar fazer menos barulho e desfrutar da vida juntos no ISC”. Agradeço o relativo isolamento acústico dos apaatos, o que me faz acompanhar a bagunça dos asiáticos somente quando estou no corredor e próxima à porta.

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Tomando (no) Qoo, sempre

A vida fodona. Eu era incapaz de articular uma simples frase em japonês quando cheguei aqui. Estava assustadíssima com a velocidade de fala dos atendentes daqui, que, de tão condicionados às suas funções, nem esperavam eu articular uma palavra que fosse (ou, ainda, decidir algo entre as várias opções de produtos disponíveis). Hoje em dia me sinto um pouquinho mais confiante e consigo lidar com situações básicas e entender bem o que eles dizem – mas a impaciência para lidar com clientes indecisos parece ser uma característica indelével do pessoal de Aichi. Tecnicamente estou no nível intermediário, mas ainda não consigo fazer frases longas sem hesitar longamente. Uma das alemãs, que está no meu nível, olha divertida para a minha hesitação, talvez esperando um “por que vc não está na turma do intermediário-avançado?”, mas estou tentando ignorar isso em prol da minha saúde mental e da minha aprendizagem no idioma. A velocidade com que estou me habituando aos kanjis e suas leituras é vertiginosamente maior do que estando no Brasil, obviamente – o que só corrobora a máxima de que a imersão é pré-requisito necessário para o aprendizado eficaz de um idioma.