O primeiro mês

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Foto do castelo de Nagoya porque, afinal, nas palavras da Tati, Nagoya é a nossa casa.

Quando fui me despedir do Bruno antes de vir para Japão, entre os muitos “conselhos de mãe” que eu recebi (cuidado com o frio, leve um casaquinho etc), um se destacou e ficou a reverberar todos os dias dentro de mim desde que pus os pés aqui: aguente firme o primeiro mês.

Eu naturalmente não sou uma pessoa que se entusiasma com as coisas. Em linhas gerais, eu costumo afastar as pessoas que se comovem com situações de comoção típicas por sempre encará-las como algo trivial e com o qual precisa ser lidado. Talvez por um condicionamento extremo após ser condenada por muito tempo pela minha “expansividade escandalosa”, a ordem do dia é manter firme e forte a casca do meu mau humor de setenta anos (por mais que o rostinho de 20 crie aquele contraste impressionante) – o que nem sempre dá certo, mas isso é um mero detalhe operacional. Em miúdos, enquanto todos se empolgavam com a minha conquista, eu continuava imersa na imensa modorra cotidiana, observando os votos e reações felizes dos que me eram queridos com certo estranhamento, até.

Dito isso, os preparativos para a viagem foram feitos sem aparente euforia: eu estava indo a estudo, para me submeter a um processo que já vislumbrava doloroso para aprender o idioma, e a parte turismo foi significativamente eclipsada com a coisa toda. Ela por fim definitivamente foi escanteada com os gastos para proporcionar o conforto básico para o meu apaato: em menos de vinte dias, meus cento e quarenta mil ienes conseguidos com o suor dos meus indignos freelas foram praticamente para o vinagre (embora eu agora esteja com uma panela de arroz multifuncional, um futon com edredom maravilhosamente macio e quentinho e uma despensa que garantirá a minha barriga cheia por um bom tempo). Como toda boa pessoa venusiana, o dinheiro curto logo trouxe frustração e amargor, e a impossibilidade de sair de Nagoya com os altos valores do shinkansen (visto de estudante não dá direito à aquisição do free pass da maravilha, oe!) fez com que eu ficasse a um passo de uma nova edição da franquia Férias Frustradas em Nagoya.

Outra parte delicada foi, sem dúvida, o impacto com a realidade japonesa, a barreira linguística e o conflito comportamental. É fato conhecido e milenar que o Japão possui uma controversa relação com o Ocidente – e o caso adquire nuances particularmente problemáticas quando o assunto toca na presença de comunidades específicas. Em Nagoya, o caso brasileiro é especialmente exemplar: por mais que seu fenótipo seja passavelmente gringo, o ser ouvido em português pode suscitar as mais diversas reações. Brasileirices à parte, foi com espanto que vi uma garçonete tratar o namorado da prima do Rafa com certa rudeza ao pedir açúcar para por no chá. OK, o chá era de graça; OK, o chá é bebido sem açúcar no Japão (ao menos aquele que acompanha as refeições), mas isso foi frisado sem delongas pela funcionária de um restaurante de Okazaki a um… sujeito descaradamente americano. Fiquei um tempo a pensar se o japonês médio andava ficando meio xenófobo após ser também tratada com rudeza por uma funcionária do mercado próximo ao Kaikan quando quis perguntar a ela (em um relativamente correto e formal japonês) onde havia uma lixeira para latinhas de refrigerante enquanto ela retirava o lixo de garrafas plásticas, sendo interrompida e sequer por ela ouvida… ademais, com o tempo, a mecanicidade, o amor ao script e ao keigo exaustivamente repetitivo e o apreço pelas regras começaram a se tornar algo insuportável para mim, brasileira de sangue italiano que resolve tudo no rompante, na habilidade, no golpe de vista e na conversa. Comecei a ver o cotidiano japonês como algo vazio, insípido e sem sentido, pautado na pura obrigação de manter a ordem intacta, e o desespero começou a brotar dentro de mim.

A gota d’água foi pegar uma disciplina na Kendai com uma professora que, embora não tivesse a mínima noção de inglês (algo meio obrigatório para qualquer acadêmico que se preze em qualquer parte do mundo) a ponto de não conseguir escrever corretamente a palavra inflation, começou a achar graça da minha timidez para falar e dos meus erros de escrita em sala de aula – como se eu tivesse a obrigação de saber mais do que conferia o nível designado para aula. A pergunta “onde é que eu fui amarrar o meu burro?” piscava em neon no meu cérebro, e senti vontade de largar tudo e voltar várias vezes. Voltar para a zona de conforto, onde as pessoas apreciavam meu português colorido e sagaz, onde os meus trabalhos de literatura eram invejados pela sala inteira, onde os professores me amavam e viam em mim algum brilhantismo.

Aguente firme o primeiro mês. Nunca me apeguei tão irracionalmente a uma frase.

Muitas pessoas me ajudaram muito a superar essa crise de primeiro mês, é claro. Amigos que já estiveram aqui; meu namorado, meus pais, meus colegas do núcleo luso-brasileiro da novela Férias Frustradas em Nagoya. Munida de todas essas falas, peguei uma passagem para Tóquio que o Rafa me deu de presente antes de voltar para o Brasil e fiz um bate-volta na minha folga da última quarta-feira. Dar um rolê sozinha, pensar na vida, gastar uns dinheiros (ainda que poucos) em Shibuya. Fazia um tempo lindo. E aí eu vi o Fuji da janela do shinkansen… e descobri porque eu sempre quis vir para cá. Pensei na gentileza e afeto da minha meito que contrariavam toda aquele papo da frieza japonesa, nas pessoas simpáticas que me atenderam e elogiaram o fato de eu saber (ou pelo menos tentar falar) japonês, no sonho de ler e traduzir grandes autores do japonês, nas pessoas boas que dividem espaço comigo (embora tenha pouquíssimas afinidades temáticas com elas), na beleza dos detalhes deste país que só poderiam ser aproveitadas com uma disposição de espírito específica.

E resolvi dar uma try para o Japão.

Não estou achando que a fase de amargor e solidão acabou: naturalmente, muitos outros surtos virão, ainda mais porque o Rafa não está mais aqui e a saudade dos meus pais está começando a bater. No entanto, a aceitação do contexto – e o botão foda-se para a opinião alheia no que se refere à minha expressão em Nihongo (isso inclui o abandono da matéria da professora medíocre em prol de uma mais puxada, mas com uma professora da qual gostei muito) – têm tornado a vida mais leve. Li em algum lugar que aprender uma língua é criar uma nova personalidade dentro de si, e estou procurando encarar dessa forma desde então. Lembro, ainda, que Ánia disse recentemente que estava com medo da Amanda que voltaria do Japão – e talvez eu também estivesse, o que se manifestou na resistência em soltar a língua e, consequentemente, deixar essa personalidade ainda desconhecida aflorar.

Não faz ainda trinta dias, mas acho que posso dizer que aguentei firme o primeiro mês.

Agora só falta passar pelo inverno.

P.S. – prometo parar com as lamúrias e fazer posts mais, hum, informativos nas próximas vezes.